Sábado, Dezembro 13, 2008

Fez três anos, recentemente, que escrevi os primeiros e únicos posts deste blog. Pensei em o apagar várias vezes, mas nunca o fiz. E agora, depois de duas mudanças de país, de muitas voltas e reviravoltas, apetece-me escrever!! Não sei bem o quê... É sobre o que vou pensar... !!

Terça-feira, Dezembro 06, 2005

Nada É Impossível De Mudar

Desconfiai do mais trivial , na aparência singelo.E examinai, sobretudo, o que parece habitual.Suplicamos expressamente:não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,pois em tempo de desordem sangrenta,de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,de humanidade desumanizada,nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.
...

Bertold Brecht

Praxe: humilhação e autoritarismo


Os resultados do concurso nacional de acesso ao ensino superior já são conhecidos. Apesar de terem ficado muitos alunos de fora, a grande maioria foi colocada. E, para estes últimos, começa uma nova etapa da vida. Muda-se de cidade, sai-se pela primeira vez da casa dos pais, vai-se viver sozinho e seguem-se caminhos diferentes da maior parte dos amigos.
Quando se chega à universidade, deparamo-nos com um grupo de estudantes chamados “veteranos”, vestidos de negro, ansiosamente à espera do “caloiro” para o ajudar a integrar-se na vida académica. A este são impostas uma série de práticas, denominadas de praxes, pautadas pela violência, a humilhação e a subjugação, onde a liberdade e a autonomia individual são desrespeitadas.
Os defensores destas práticas medievais argumentam com a tradição, integração e afirmam que o novo aluno pode recusar participar na praxe.
Por conseguinte, e visto que a maioria das instituições de ensino superior não têm mais de 20 anos, que tradições podem ter nesse campo e, por outro lado, não devem as tradições adaptar-se à dinâmica dos tempos? Em relação à integração, como podemos fazer amizade com os colegas em ambientes de terror e medo? Como nos podemos sentir integrados, quando sujeitos aos devaneios déspotas de colegas com um número superior de matrículas? A verdadeira amizade constrói-se na rotina do dia-a-dia, num ambiente saudável, onde os mais elementares direitos humanos são respeitados.
Sendo a praxe opcional, porque razão os alunos são ameaçados de ostracização e exclusão caso se recusem a participar? As ameaças são de vários tipos, chegando mesmo, na Universidade do Minho, a consistir na divulgação pelo meio de cartazes no campus, da fotografia do aluno que se negue a participar nesta prática autoritária.
Desta forma, como podemos aceitar num estado democrático este ritual opressor e arcaico? É possível dizer não, é possível integrar num ambiente de festa participada de igual para igual, onde a liberdade e consciência individual sejam respeitas e valorizadas.

8 de Março

8 de Março
Faz hoje 145 anos que centenas de mulheres das fábricas de vestuário e têxteis de Nova Iorque iniciaram uma marcha de protesto contra os baixos salários, o período de 12 horas diárias e as más condições de trabalho. Foi uma das primeiras acções de protesto realizadas por mulheres. Assim, desde 1975 o dia 8 de Março é comemorado pelas Nações Unidas, como o Dia Internacional da Mulher.
Se é certo que nos últimos anos foram alcançados grandes avanços, também é certo que ainda há muitas razões para se continuar a lutar, tais como: as discriminações no emprego em função da maternidade, a violência doméstica, a grande diferença entre o número de mulheres e homens nos órgãos de decisão política, a negação do direito à saúde sexual e reprodutiva, a criminalização do aborto e consequente impedimento da liberdade de optar e do direito a uma maternidade desejada. Por conseguinte, este dia não pode passar sem se condenar o julgamento das 17 mulheres da Maia, acusadas da prática de aborto. Como pode um país que se diz democrático, humilhar a dignidade individual e expor a privacidade de uma mulher? A face daquelas mulheres é a face de todas nós, acusadas por decidir sobre o nosso direito inalienável à reprodução.
A discriminação aparece sob as mais diversas formas. Que dizer do cartão da mulher famalicense, proposto pelo MAF? A única coisa a dizer é que as mulheres não precisam de atestados de menoridade sobre a forma de descontos especiais em eventos culturais, ou em estabelecimentos de vários tipos, precisam sim, de ganhar o mesmo que os homens quando realizam os mesmos trabalhos.
Cabe a cada uma de nós, a conquista diária de um espaço que deveria ser nosso por direito, e cabe a todos nós, contrariar as desigualdades que persistem e as que despontam no início do novo século.

A política e as mulheres


Em Portugal a mulher adquire novo protagonismo político com o 25 de abril, e a partir daí inicia-se a luta feminina em torno dos seus direitos, para que a sua condição de vida ultrapasse os limites domésticos, e lhe seja dada igualdade de oportunidades e acesso aos lugares de decisão. Esta luta tem passado pela tentativa de romper a tradição cultural de uma sociedade classista e patriarcal, onde a mulher é considerada por natureza frágil e submissa, cabendo-lhe apenas um papel social secundário.
Apesar de muitas mulheres já ocuparem cargos em campos outrora dominados pelos homens, a situação está longe de ser a ideal, embora o contrário seja hoje uma ideia vulgarmente aceite. Assim, ao ler o guia do munícipe editado pela Câmara de Vila Nova de Famalicão, verifiquei um exemplo prático, no executivo municipal, só três dos onzes lugares são ocupados por mulheres, e nas 49 freguesias do concelho, todos os presidente de junta são homens. Estas continuam a aparecer em menor número nas listas, e sendo-lhes reservado os últimos lugares, para não correrem o risco de serem eleitas.
Esta situação não se explica com o estereotipo de que as mulheres tem um desinteresse natural para a política, pois apesar de vivermos num concelho com um significativo nível de escolarização feminino, estas continuam a ser vitimas de várias formas de violência, de discriminação no emprego, da negação dos seus direitos reprodutivos, e principalmente continuam a crescer em famílias onde o modelo de relação entre os sexos transmitido é o da subordinação das mulheres, tornando-as prisioneiras de uma condição que elas próprias assumem como sua.
Esta situação tem sido cultivada pelos médias nas mais diversas formas, como no caso da publicidade em que as mulheres aparecem sempre junto aos produtos de limpezas, sorridentes com um pano de limpar o pó na mão. Mesmo ao nível local, é lamentável ver que há quem num charcos opaco de ideias, reserve ás mulheres a selecção do guarda roupa dos candidatos a câmara, legitimando a discriminação e o machismo.
Nenhum concelho, distrito ou país pode crescer saudável, sem uma participação por inteiro das mulheres, sem uma participação real nos órgãos de decisão, e sem o reconhecimento efectivo do seu direito à cidadania.

Quinta-feira, Outubro 20, 2005

O direito à felicidade nesta droga de vida...

Sou jovem num mundo em que a vida parece uma corrida de obstáculos. Onde a injustiça, e a hipocrisia são rotina, onde as obrigações são mais que os (poucos) direitos, onde nos impingem um modelo de vida fabricado, com o pacote completo: hierarquias, dogmas, serviço militar obrigatório, praxes, reality shows, centros comerciais, calças de marca e pipocas. Somos o centro dos anúncios publicitários e somos adultos porque somos mercado.
O ensino não passa de uma paixão platónica, aprende-se mal, muito devagar e à balda, faltam computadores e ginásios. As escolas são penosos momentos de prática diária para professores e estudantes. Não podemos estudar o que gostamos, frequentamos cursos condicionados pelos interesses económicos e pelas saídas profissionais. Prometem-nos escolas gratuitas, mas os estudantes pagam bolsas ao estado (propinas). Tentam-nos impor normas sociais retrógradas, uniformizadoras, e morais conservadores que tentam fazer com que tenhamos medo do nosso corpo e da nossa sexualidade, que dizem que sexo só depois do casamento e para constituir família, que a homossexualidade é uma doença, que o prazer é pecado, que as mulheres não têm direito de decidir sobre o seu corpo, procurando uma maternidade desejada.
O acesso à cultura é condicionado pela disponibilidade financeira de cada um, pois tal como tudo esta foi mercantilizada. É-nos imposto um modelo cultural de massas, que assenta na confusão entre informação e entretenimento e em padrões criativos simplificadores e empobrecidos, mas que garantem o lucro. Acabado o nosso percurso de estudantes, o futuro é o dos estágios profissionalizantes não remunerados, da roleta do emprego e desemprego, dos contratos a prazo e recibos verdes, do trabalho sem garantias e de um eterno adiamento da saída da casa dos pais e da ansiada liberdade.
A ecologia é condicionada pelos interesses económicos e a degradação da qualidade ambiental ocorre a um ritmo galopante: o buraco do ozono, o aquecimento global do planeta, o excesso de poluição atmosférica, o crescimento urbano caótico. O discurso ecológico não passa de enfeite de programa eleitoral.
O problema da toxicodependência nunca afectou de forma tão grave a sociedade como agora, quer pelas suas consequências ao nível da saúde pública, quer pela criminalidade associada. O que leva a constatar a falência das políticas probicionistas e repressoras, e das campanhas de prevenção pobres e demagógicas, como o cartaz com um boneco a dizer que é “feliz sem drogas” ou uma “ piscina contra a droga”. Vivemos numa sociedade que hipocritamente proíbe a erva e o haxixe e aceita o elevado consumo de álcool, que ao contrário destes causa graves problemas de habituação.
Somos jovens num país em que por tal somos tratados como menores pelos seus costumes e leis. Somos adultos porque somos consumidores, mas não temos espaço para nos fazermos ouvir. Em período eleitoral somos animação de campanha, reduzem a nossa participação na vida activa às jotas dos partidos, que servem para obedecer a ordens e imitar modelos.
Apesar de tudo, sei que a realidade em que vivemos não é uma inevitabilidade, que é possível construir alternativas, modos diferentes de viver e de conviver e recusar a ideia de vidas conformadas e passivas. Acredito que é realizável uma política que ultrapasse os limites do possível, feita por todos e para todos. Reclama-se o direito ao sonho e a felicidade.